Obs.: resolvemos divulgar essa relatoria publicamente, uma vez que ela aborda várias questões importantes do audiovisual do Paraná e, por consequência, do Brasil.

Versão em PDF – relatoria-pre-jornadacineclubes2011pr-16-12-2010.pdf

Relatoria da reunião preparativa da jornada cineclubista de 2011 com a presença de cineclubistas e interessados em cineclubismo no Paraná. A reunião aconteceu na quinta-feira, 16 de dezembro de 2010, em Curitiba, no Teatro do SESC da Esquina, das 16:15 às 18:30h, sendo assumida como parte das comemorações da Mostra CINETVPR 2010, realizada à noite deste mesmo dia.

Presentes:

  1. Vera Lucia Pereira (professora no Colégio Estadual Carmen Costa Adriano, de Paranaguá, com ensino fundamental e médio);
  2. Nilson dos Santos Morais (formando em filosofia, ex-bolsista do projeto Campus Central e membro da comissão organizadora do Cineclube Campus Central da UFPR);
  3. Felipe Cardoso (cinéfilo e estudante da UFPR, área de ciências humanas);
  4. Márcio Assad (dirigente cultural na Lapa; preservador da memória ferroviária; membro da comissão organizadora do cineclube da Lapa e do Festival da Lapa);
  5. Thiago Douglas Moreira (Secretário Estadual de Cultura do PT/PR, estudante de Artes Visuais da FAP);
  6. Julien Coelho (estudante de cinema da FAP/CINETVPR, dirigente do CAZÉ – Centro Acadêmico Zé do Caixão e do cineclube //// da CINETVPR);
  7. Janeslei Aparecida Albuquerque (dirigente da APP, uma das organizadoras de Agenda 2011 e do projeto cinema militante)
  8. Genésio Cardoso (diretor cultural do Sindicato dos Bancários de Curitiba)
  9. Pedro Plaza Pinto (chegou um pouco antes do final pois estava participando de uma banca na Universidade Federal, na qual é professor no Depto de História da UFPR, ex-professor da CINETVPR, permanecendo para a Mostra)
  10. Fábio Thibes (estudante de Cinema da FAP/CINETVPR, esteve também no início da reunião mas não permanecer por muito tempo)
  11. Emmanuel Appel (Professor na Ufpr//Depto de Filosofia)
  12. Rodrigo Bouillet (Cine+Cultura/MinC)
  13. Frederico Neto (estudante de cinema da FAP/CINETVPR e ex-dirigente e fundador CAZÉ)
  14. Reno Caramori (cineclubista catarinense; diretor regional sul do CNC/Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros)
  15. Antonio Sérgio Busnardo (ator de teatro e cinéfilo)
  16. Tássia Arouche (estudante e dirigente do cineclube Terça tem Cinema, da UTFPR/Universidade Tecnológica Federal do Paraná)
  17. Fernando César Toledo Martins (administrador de empresas, estudioso de futebol)

Enviaram mensagens parabenizando a iniciativa do encontro e explicando gentilmente os motivos da ausência:

  1. Elza Maria Campos (professora na Unibrasil e dirigente da UBM/União Brasileira de Mulheres)
  2. Valéria Arias (mestre em filosofia da educação e dirigente do Nesef/Núcleo Estudos sobre Ensino de Filosofia/Setor de Educação/UFPR)
  3. Fabiana Moro (cineclubista e dirigente do Memostra)
  4. Herondes Cezar Siqueira (cinéfilo histórico e dedicado, autor de “Era uma Vez O Cinema”, sobre o nascimento e o caso do cinema em Piracanjuba/Goiás, editado em 1996; nos últimos anos tem sido o responsável, desde Brasília , pelo Blog eraumavezocinema.blogspot.com)
  5. Antonio Markus (mestrando em filosofia na Federal, dirigente da Casa do Estudante Universitário do Paraná/CEU/PR e membro da comissão organizadora de seu cineclube)
  6. Hanelise Marzall (formanda em filosofia na Federal e membro da comissão organizadora do Cineclube Campus Central da UFPR)
  7. Argel Medeiros (dirigente do Kinoarte e da AVEC/PR – ABD local)

Após apresentação dos presentes acima seguiram-se as duas exposições constantes da programação:

+ Da importância do cineclubismo para o cinema e para a formação do público (pontos transcritos da exposição do Prof. Emmanuel Appel que, em sua versão integral sairá publicada, em breve, como artigo)

“Para introduzir minhas referências, apresentar minhas, digamos assim, “armas teóricas” – assim vocês podem controlá-las – começo com uma lembrança de meus tempos de estudante secundarista: o Ciclo Eisenstein de Cinema, ocorrido em setembro de 1963, no grande auditório do Colégio Estadual do Paraná. As cópias (“A Greve”/1925 ; “O Encouraçado Potemkin”/1925 ; e “Alexandre Nevski”/1938) , apesar de bastante picotadas, mudas e com legendas em russo, tornaram-se inteligíveis graças a apresentação de Paulo Emílio Salles Gomes, então já conhecido por suas críticas no Suplemento Literário do Estadão, e desde sua colaboração na primeira metade dos anos 40 na revista Clima, quando conviveu com Antônio Cândido. Sigo em frente com base nesses dois autores, com Paulo Emílio – que inseriu o cinema dentro da cultura e da formação social brasileira e ainda fez com que sua geração pudesse verdadeiramente aprender cinema – e com o Antônio Cândido de “A Formação da Literatura Brasileira”, escrito nos anos 50, em que descreve os momentos decisivos da formação de uma literatura nacional, a constituição progressiva de um sistema literário, composto de autores, obras e público, todos interligados, indissociáveis. Paulo Emílio trabalha nesta perspectiva, quer ver o cinema nacional se estabelecendo neste  movimento autor>obra>público, formando assim uma continuidade cinematográfica, uma tradição. Sem esta tradição não há cinema, não há cinema como processo civilizatório. Não há cinema sem cultura cinematográfica, não há cinema quando se fazem filmes e não se fala dos filmes, não há cinema quando autor e obra não encontram o seu público. Aí é que entram os cineclubes: contribuem para a formação do público,estão na defesa dos interesses do público, desenvolvem sua capacidade de apreciação artística, apostam na vocação original do cinema de ser arte democrática e popular.

Em consequência, um importante ponto a ser reiterado pela jornada cineclubista de 2011 – ponto que podemos encontrar tanto na Carta de Curitiba, – redigida por cineclubistas em jornada realizada no Teatro do Paiol, em fevereiro de 1974, na qual afirmam seu claro engajamento em favor do cinema nacional, seu compromisso com o projeto cultural brasileiro – como na recente Carta da Lapa, de junho de 2010, em que, ao lado de considerações sobre formação técnico-profissional, sobre pesquisa e preservação cinematográfica, sobre filmes de época, também chamam atenção aquelas ligadas à relação entre cinema e educação e à necessidade de aproximar os cineclubes existentes e implantar novos, inclusive com propostas de políticas públicas, em todos os espaços possíveis: escolas, universidades, associações, institutos, bibliotecas, museus, sindicatos, clubes, câmaras municipais, dentre outros, contribuindo com a formação do público, de público para o cinema nacional, de quadros que possam fazer crítica de cinema, uma atividade não menos importante que fazer cinema.

Diante da reafirmação do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros de priorizar o seminário cinema, cineclubismo e educação, de trabalhar pela presença da arte cinematográfica nas escolas, considero oportuno levarmos em conta a experiência desenvolvida nas escolas públicas francesas entre 2000 e 2005 e quem soube melhor condensá-la, Alain Bergala, autor de “L’hypothese cinéma: petit traité de transmission du cinéma à l’école et ailleurs”, editado pelos Cahiers du Cinema, e que podemos traduzir como “Hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola”. Avanço em duas de suas pistas de trabalho, dentre as muitas outras que estão nas duzentas páginas de seu belo livro: 1) que junto com o espaço apropriado para o cineclube, cada escola tenha uma filmoteca básica de cem filmes, os cem melhores da história do cinema; 2) que os estudantes  de cinema, – e aproveito para lançar aqui um desafio ao Cazé e aos que frequentam o seu cine clube – elaborem uma pedagogia de fragmentos (fragments misen rapport), começando talvez com uma antologia de excertos, uma antologia das melhores sequências de cineastas-autores. E que em seguida explorem ao máximo as possibilidades do DVD, permitindo assim, chegar ao mesmo tempo, instantaneamente, ao conjunto e ao detalhe, comparar detalhes distantes, passear livremente pelo filme. Não exagero se com Bergala concluir que por aí dá, no mínimo, para conjeturar como este movimento de imagens (e de sons), como esta relação de fragmentos que pensam o cinema permitem, por sua vez, pensar o cinema.

+ Da retomada do movimento cineclubista, seus resultados e perspectivas, aspectos captados da exposição de Rodrigo Bouillet (Ação Cine+Cultura/MinC)

1 – O cineclubismo brasileiro foi sustentado por raríssimas iniciativas durante a década de 1990, porém ele volta forte com a emergência do digital, do projetor digital, home theater, dvd, player, cada vez mais baratos, acompanhado de tecnologias cada vez mais avançadas. O acesso aos equipamentos de exibição também tornaram-se possibilidade real de pequenas instituições assim como de grupos informais. Com o Governo Lula, alguns representantes da base do cinema (ativistas do curta-metragem, do documentário e do cineclubismo) foram para a SAV (Secretaria do Audiovisual), o que facilitou o trabalho e a articulação dessa base.

2 – Em 2003, começou a retomada do cineclubismo através de uma organização de cima pra baixo, reativando assim o Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros/CNC. Basicamente, podemos destacar 2 norteadores do trabalho realizado até agora: (a) alargar a base do cineclubismo e (b) garantir “conforto” a essa base. (i) Em 2004, o CNC, numa Jornada Nacional de Cineclubes, apresentou um programa para o cineclubismo brasileiro. Como resultados desta demanda, em 2006 veio a Programadora Brasil e, no mesmo ano, foi lançado um edital para equipamentos de exibição. A Programadora Brasil vem passando por sucessivos aprimoramentos. O edital exclusivo de equipamentos não se provou a melhor solução. O Minc percebeu que equipamento é meio, não é fim. Assim, em 2008 veio a ação Cine+Cultura com uma proposta mais coesa: editais que fornecem capacitação cineclubista (oficinas ministradas pelo CNC); equipamentos de exibição; DVDs da Programadora Brasil; monitoria de 3 meses; constituição de ações em rede com o movimento cineclubista organizado. Hoje em dia, são 820 cineclubes em atividade nos 27 estados brasileiros em relação direta com o MINC, via Cine Mais Cultura. (ii) Um campo de intensas lutas do movimento cineclubista organizado tem sido o do direito autoral. Trabalha-se que a nova Lei contemple o cineclubismo, para que garanta aos cineclubes a possibilidade de exibir os filmes sem ter que pagar, seja ao detentor do direito patrimonial do filme, seja ao ECAD, que cobra pela “música dentro do filme”).

3 – Atualmente existem vários exibidores sem fins lucrativos. Concluída a entrega de equipamentos na virada deste ano, serão aproximadamente 1.000 cineclubes via Cine+Cultura. Já podemos contabilizar uns 2.000 cineclubes via Pontos de Cultura. Há mais 500 cineclubes associados ao CNC que existem sem vínculo com políticas governamentais. Se incluirmos as salas de exibição do Sistema S (SESC, SESI, etc), centros culturais, cinematecas, dentre outros, talvez já estejamos falando de um circuito por volta de quatro mil exibidores! A questão é como garantir uma amarração mínima entre esses agentes.

4 – O Paraná não esteve próximo das políticas do MINC ao não acompanhar o programa Mais Cultura (http://mais.cultura.gov.br). Aqui, os contemplados por meio de editais de Ponto de Cultura e Cine Mais Cultura foram premiados através de concorrências nacionais, que são muito difíceis. Na maior parte das unidades federativas, experimentou-se “estadualização” dos editais. Ou seja, um edital nacional implica na disputa entre entidades de estados diferentes. Um edital “estadualizado” implica na disponibilização de prêmios entre entidades do mesmo estado, possibilitando, sobretudo, a contemplação de instituições que não estão na capital e nas cidades mais fortes. No Paraná há ainda a necessidade de constituição do Conselho Estadual de Cultura, com a presença de representantes do audiovisual.

5 –No presente, o CNC inicia contato com o Forproex/Fórum dos Pró Reitores de Extensão das Instituições Federais de Ensino Superior, tanto para estimular o cineclubismo dentro das universidades quanto para fomentar o cineclubismo entre os estudantes – seja através de cineclubes em espaço ociosos da cidade reunindo alunos de diferentes disciplinas, seja por meio do auxílio de estudantes à programação e/ou debates de cineclubes já existentes. O interesse dos setores de Humanas e de Educação da UFPR em cineclubismo já abre um bom caminho para esse diálogo.

6 – Outra linha de atuação do CNC está na busca de aproximação com o Ministério das Comunicações, que tem o paranaense Paulo Bernardo como futuro ministro. O referido ministério é responsável pelos telecentros. Atualmente, são 7mil em praticamente todos os municípios brasileiros (com exceção de apenas 84). No Paraná são 499. Todos contam com computadores, banda larga e projetor digital. Com equipamento de som e aquisição de filmes podem participar de oficinas de capacitação e aos poucos se constituir em cineclubes. Talvez, como experiência piloto, o Paraná possa articular esforços de Secretarias de Cultura e Ciência e Tecnologia + emendas parlamentares + projeto de extensão “A Experiência do Olhar”, vinculado ao programa Universidade Sem Fronteiras da SETI-PR + o curso de Cinema da Faculdade de Artes do Paraná / CINETVPR – Escola Superior Sul Americana de Cinema e Televisão do Paraná + UFPR + UTFPR Instituto Federal/IFET-PR + Kinoarte (também oficineiros do Cine Mais Cultura no PR).

+ Que fazer: propostas e encaminhamentos:

  1. Reno Caramori: fazer uma amarração de contatos e ações para formar um calendário conjunto para 2011, envolvendo atividades de exibição, circulação e discussão. Criar um espaço para discutir e encaminhar este calendário.
  2. Márcio Assad: fazer a Jornada Cineclubista Paranaense de 2011 na Lapa, durante o Festival, em novembro (proposta muito bem-vinda, apreciada e aceita) .
  3. Frederico Neto: ao longo de 2011, que os cineclubes trabalhem associados para fortalecimento mútuo. Possibilidade de uma associação de cineclubes do Paraná, podendo a mesma ser criada na Jornada no Festival da Lapa em novembro. Montar uma espécie de “núcleo duro” (cineclubes realmente comprometidos na organização e fortalecimento do cineclubismo) inicialmente em Curitiba (CINETVPR, UTFPR, Bancários, MeMostra, Bruxão, dentre outros) e em Londrina que hoje concentra o maior número de cineclubes em atividade, com programação regular. Quaisquer cineclubes de fora ou de Curitiba e Londrina aqui não citados, estão convidados a participar, bem como as comissões organizadoras dos cineclubes da Lapa, do Campus Central da UFPR, da Casa do Estudante Universitário, da Cinemateca, dentre outras.
  4. Rodrigo Bouillet: fazer uma ponte entre Curitiba e Londrina, constituir um calendário permanente de reuniões entre cineclubes do mesmo município. Ao menos, uma reunião por mês. Troca de deliberações em uma lista comum a todos (sugestão Circuito-PR). Realização de encontros periódicos de cineclubes de Curitiba e Londrina (e demais localidades que queiram participar), dentro da agenda audiovisual do Paraná (ver abaixo), levando em conta que em agosto último um primeiro encontro de cineclubes já foi realizado nas dependências da UEL – Universidade Estadual de Londrina, com a participação do IFET/ Campus Londrina, SESC, SESC Apucarana, Secretaria Municipal de Cultura, dentre outros, organizado pelo Kinoarte/Instituto de Vídeo e Cinema de Londrina.
  5. Emmanuel Appel: montar uma espécie de cadastro de possíveis mediadores/ debatedores, garantindo assim a discussão nos cineclubes; organizar oficinas cineclubistas para o trabalho de expansão dos cineclubes; organizar mostras de grandes cineastas nacionais (Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros).

Esboço de agenda/calendário cineclubista paranaense para 2011 (a ser concluída quando de uma nova reunião, em local a ser estabelecido):

  1. organizar uma mesa cineclubista durante a Semana de Cinema da CINETVPR, a ser realizada entre os dias 16 a 20 de maio;
  2. propor uma atividade cineclubista no PUTZ – Curitiba, no final de maio ou início de junho;
  3. garantir a presença da pré-comissão da Jornada Cineclubista do PR no FAM, em junho de 2011 (http://www.audiovisualmercosul.com.br), de forma a congregar o cineclubismo sulista.
  4. propor uma atividade cineclubista na Mostra AVEC em outubro;
  5. realizar a Jornada Cineclubista do PR no Festival da Lapa em novembro, durante o festival.

Curitiba, 16/12/2010.

Relatoria de Frederico Neto (com a colaboração de Emmanuel Appel e Rodrigo Bouillet)