por Frederico Neto*

Provavelmente os gestores, pesquisadores e produtores de cultura devem ter recebido por e-mail e nas mídias sociais o texto da pesquisadora e professora da ECO/UFRJ, a Dra. Ivana Bentes, intitulado “A esquerda nos eixos e o novo ativismo”, que busca desqualificar o editorial do site Passa Palavra sobre as recentes mobilizações em São Paulo e a fragilidade prática e teórica de uma “nova” forma de ativismo político e estético emergente no contexto contemporâneo.

Não é de se estranhar a repercussão do texto da Dra. Ivana Bentes e seus possíveis desdobramentos em outros artigos e eventos a serem realizados pela pesquisadora ou com a presença da pesquisadora. Esse mesmo tipo de investida já foi testemunhada quando a pesquisadora revolveu atacar o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, após a sua boa recepção de público e crítica.

Um oportuno precedente:

Em 2001 após a repercussão do filme Cidade de Deus no Festival de Cannes, a pesquisadora Ivana Bentes publica no Jornal do Brasil o texto-manifesto “Da estética à cosmética da fome” (1), onde busca uma ligação da estrutura narrativa do filme (denominada de pós-clássico pelos críticos e teóricos de cinema) com os pressupostos políticos e estéticos modernos do Cinema Novo, em especial o manifesto “Eztétyka da Fome” de Glauber Rocha, utilizando a etiqueta-analítica “cosmética da fome” para denunciar a representação estilizada da violência do tráfico nas favelas cariocas.

Em uma segunda investida, em 2002, após a estréia do filme nas telas brasileira, publica no jornal O Estado de São Paulo o editorial “Cidade de Deus promove um turismo no inferno”, obtendo com a repercussão midiática do texto a condição de referencial teórico na polêmica que deflagrou. Posteriormente vieram os artigos acadêmicos, as pesquisas e, é claro, os seminários e os painéis nos fóruns de discussão de cultura.

No artigo-resposta “O dragão da cosmética da fome contra o grande público”, Fernando Mascarello, crítico e pesquisador de cinema, problematiza a etiqueta-analítica cunhada por Ivana Bentes e aponta uma “meticulosa calibragem para a repercussão na mídia, ajustando-se, assim, ao ‘mercado’ da discussão intelectual” (2). Destaca-se o caráter legitimador/patologizador de um discurso que se apoia no referendo de um público ávido por elementos para o exercício de uma distinção social, no sentido sociológico do termo.

Citando e comentando alguns destaques feitos por Ivana Bentes:

A seguir um trecho que busca desqualificar o editoral do site Passa Palavra, se ancorando em um esclarecimento e compreensão que só a pesquisadora julga possuir:

“O texto não consegue configurar que os movimentos e articulações, ainda que incipientes, das marchas das liberdades em todo Brasil não são “a nova classe dominante”, mas a emergência de um movimento transversal, “movimento de movimentos”, com dinâmica própria e singular em cada território, com uma pauta heterogênea, aberta e em construção, sem central única” ou “comando” dos “iluminados”, que se auto-organiza e cujos “fins” não foram dados a priori!”

Mais radical na sua argumentação, esse outro trecho busca desqualificar o coletivo que assina a autoria do editorial, apontando como conservadora e desatualizada qualquer perspectiva classista, remetendo ao clichê “fluxo”, em caixa alta, que é moda nos estudos de comunicação e cultura:

“O artigo parece ter como horizonte a luta por cartórios do século XIX!!! Com estratégias e palavras de ordem abstratas, um “anticapitalismo” vago que perdeu o sentido. Pois as novas lutas são em FLUXO, são modulações, não são MOLDES PRE-FABRICADOS, não são sequer anti-capitalistas, no sentido estrito, pois estão hackeando o capitalismo, se apropriando de suas estratégias para resignificar o COMUNISMO das redes, no sentido mais radical de um comunismo DENTRO do próprio capitalismo, esquizofrenia do sistema que produz hoje um horizonte do COMUM, que temos que construir e pelo que temos que lutar.”

Aqui outras generalizações teóricas como “novas dinâmicas de trabalho”, frequente nos estudos sobre a globalização e “laboratórios de experimentações” que está totalmente fora de contexto, um conceito tirado da cartola:

“O Circuito Fora do Eixo é, no meu entender, um dos mais potentes laboratórios de experimentações das novas dinâmicas do trabalho e das subjetividades. Que tem como base: autonomia, liberdade e um novo “comunismo” (construção de Comum, comunidade, caixas coletivos, moedas coletivas, redes integradas, economia viva e mercados solidários).”

Nesse trecho, a seguir, a pesquisadora busca uma etiqueta-analítica para definir o Fora do Eixo com a pérola “esquerda pós-fordista”, para um grupo que não é simpático com denomicações clássicas de espectro político e ideológico como esquerda e direita, mas que prefere ser etiquetado de alternativo e independente:

“Ou seja, o Fora do Eixo entendeu que o modelo na produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo. (…) Uma esquerda pós-fordista que está dando certo, que inventa estratégias de Mídia, que inventa “mercados” solidários, contrariando os anunciadores do apocalipse.”

Mais generalizações sobre as potencialidades políticas do Fora do Eixo:

“A ideia de que, para se ter “direitos”, é preciso se “assujeitar” em uma relação de patrão/empregado, de “assalariamento”, é uma ideia francamente conservadora. O precariado cognitivo, os jovens precários das economias da cultura estão reinventando as relações de trabalho; os desafios são enormes, a economia pós-Google não é fordista, não é melhor nem pior que as velhas corporações, mas abre para outras dinâmicas e estratégias de luta, EM DISPUTA!
Não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial!!! Como faz o texto na sua argumentação redutora e tendenciosa.
Não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias.
O Fora do Eixo está apontando para as novas formas de lutas, novas estratégias e ferramentas, que inclui inclusive PAUTAR AS POLITICA PUBLICAS, PAUTAR o Parlamento, PAUTAR A MIDIA, Pautar a Globo, como as marchas conseguiram fazer! Ser bem sucedido ai, onde muitos fracassaram, é o que parece imperdoável!

Em relação a pressão ou articulação feita para pautar as demandas e influenciar nas políticas públicas, o FdE e derivados, não diferem dos ruralistas, evangélicos e demais estratos sociais no seu corporativismo. O Fora do Eixo apenas participa da disputa por fundos públicos.

Outro trecho desqualificando a perspectiva classista do site Passa Palavra, com ataques de cunho legitimador/patologizador, como na polêmica com o filme Cidade de Deus; sublinhei o termo “ressentimento”, que é muito comum nos estudos sobre cinema brasileiro:

“Há um enorme ressentimento no texto, mal disfarçado, diante de tanta potência, lida pela chave mesquinha da “luta por poder”, “captalização de prestígio”, da “nova classe dominante”. O objetivo infelizmente parece ser o de desqualificar, rotular e “neutralizar” os que são os novos aliados de uma radicalização do processo democrático no Brasil, que estão inovando na linguagem e nas estratégias. “Perigo” que ameaça a jovem/velha esquerda, que perde protagonismo em todas as esferas, incapaz de dialogar com esse novo e complexo cenário, com todos os seus riscos. Experimentar = se expor aos riscos.”

Por fim, nota-se que o texto não é dirigido para o Passa Palavra, não é uma reposta a análise feita; aproxima-se mais de um consolo teórico e ideológico para os ativistas do FdE, Cultura Digital e afins.

Cronologia:

  • Em 17/6/2011 foi publicado pelo Passa Palavra, em seu site, o artigo “A esquerda fora do eixo” [http://passapalavra.info/?p=41221], iniciando a polêmica.
  • Em 22/6/2011 foi publicado no blog Trezentos, o texto “A esquerda nos eixos e o novo ativismo” [http://www.trezentos.blog.br/?p=6056] de Ivana Bentes. Na mesma data, o Passa Palavra recusa o convite feito pelo principal ativista do Fora do Eixo, Pablo Capilé, e anuncia uma reflexão em seu próprio jornal a respeito da polêmica instaurada com o texto “Domingo na Marcha” [http://passapalavra.info/?p=41431], o primeiro de uma série.
  • Em 23/6/2011, o professor da USP, o Dr. Pablo Ortellado, comemora a polêmica em seu blog com o texto “Capitalismo e cultura livre” [http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre], onde aponta algumas falhas na análise do Passa Palavra, mas sem deixar de compartilhar a leitura classista feita pelo site.
  • Em 24/6/2011, o texto “A esquerda fora do eixo” já contava com mais de 130 comentários no site Passa Palavra, incluindo textos de Cláudio Prado da Casa de Cultura Digital, o texto e comentários de Ivana Bentes e Pablo Ortellado, além de uma crítica deste último.

Enquanto o texto do Passa Palavra circula por alguns blogs e demais mídias sociais utilizado por ativistas e militantes de movimentos; o texto de Ivana Bentes é publicado em vários sites e blogs ligados a gestão cultural, incluindo o portal Cultura e Mercado [http://www.culturaemercado.com.br/pontos-de-vista/a-esquerda-nos-eixos-e-o-novo-ativismo] e no site do jornalista Luis Nassif [http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-esquerda-nos-eixos-e-o-novo-ativismo].

Notas:

* Bacharelando em Cinema pela FAP/CINETVPR, gestor cultural, cineclubista e pretenso realizador e pesquisador de cinema.

  1. Da Estética à Cosmética da Fome”, Jornal do Brasil, julho de 2001. Assim que tiver uma versão digitalizada eu publico no blog. Coloquei o link para um artigo acadêmico decorrente dessa polêmica.
  2. Ver a página 12 do artigo de Fernando Mascarello no link abaixo.

Referências:

  1. Glauber Rocha – Eztetyka da Fomehttp://www.tempoglauber.com.br/glauber/Textos/eztetyka.htm
  2. Fernando Mascarello – O dragão da cosmética da fome contra o grande público – http://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/4076
  3. Ivana Bentes – Sertões e favelas no cinema brasileiro contemporâneo: estética e cosmética da fome – http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/Alceu_n15_Bentes.pdf
  4. Ivana Bentes – Cidade de Deus promove um turismo no inferno – http://www.consciencia.net/2003/08/09/ivana.html
  5. Ivana Bentes – A esquerda nos eixos e o novo ativismo http://www.trezentos.blog.br/?p=6056
  6. Passa Palavra – A esquerda fora do eixo – http://passapalavra.info/?p=41221
  7. Passa Palavra – Domingo na marcha – http://passapalavra.info/?p=41431
  8. Pablo Ortellado – Capitalismo e cultura livre – http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre

Obs.: Nos textos feitos por Ivana Bentes e Pablo Ortellado não há referência as suas titulações acadêmicas, mas nos emails que recebi consta esse pedigree catedrático, por isso a utilização. Esse texto não segue as regras da ABNT e não é um artigo ou manifesto, só uma breve análise.

One thought on “Entre os problemas mais gritantes, Ivana Bentes destaca…

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