A Sala Milímetro conta com 25 lugares, projeção em película e em digital de alta definição. A decoração do espaço remete aos antigos cinemas de rua. E nesse aspecto, o que mais impressiona na sala não é o seu modesto tamanho, mas a sua decoração, a qualidade de som e imagem na projeção. Nessa sala tive a oportunidade de assistir pela segunda vez o documentário “A Cidade É Uma Só?”, de Adirley Queirós, que aborda criticamente o processo de exclusão territorial a partir da CEI – Campanha de Erradicação de Invasões, que originou a cidade satélite de Ceilândia, no final da década de 1960.

O projeto de modernismo que fez surgir Brasília não abrangeu os trabalhadores que construíram a cidade e os migrantes que buscavam melhores condições de vida. A partir da ótica dos excluídos emergem três personagens que conduzem a narrativa: Nanci, uma cantora que quando criança foi usada na campanha de remoções de pessoas; Zé Antônio, uma caricatura de um corretor de imóveis que especula construir casas populares no gramada da Esplanadas dos Ministérios; e Dildu, faxineiro e morador do Morro do Urubu que tenta uma vaga como Deputado Distrital pelo PCN – Partido da Correria Nacional.

A história de Nanci contextualiza as ações de Zé Antônio e Dildu, que pertencem a uma geração posterior a violência ocorrida durante a Campanha de Remoção de Invasões, esforço da elite para remover os indesejáveis “habitantes” do Plano Piloto. Enquanto Zé Antônio opera nas brechas da especulação imobiliária, Dildu verbaliza a condição de excluído em sua anticampanha eleitoral com uma plataforma que gira entorno do passado recente que originou a Ceilândia.

Longe de uma abordagem sociológica que geralmente vitimizaria ou coisificaria as pessoas, o quadro ilustrado por Queirós enseja no próprio escracho e na capacidade dos personagens de rirem da sua própria desgraça, uma poderosa crítica aos desmandos do poder e as injustiças ocorridas no passado recente do país.