Por Alexander Aguiar

No segundo dia do Festival, os olhos do público se voltaram para a programação dos Cines Centímetro e Milímetro, duas relíquias que conservam a tradição dos cinemas de rua, além de manter viva a memória do antigo Cine Metro Tijuca, cuja fachada foi replicada na construção do Centímetro, que mantém vários itens originais do antigo cinema. O rancho que abriga os cinemas também abriga uma cabana e uma diligência que fazem referência aos antigos filmes de faroeste, tornando o clima do local muito especial – sobretudo para um adorador dos filmes de faroeste como eu.

Pela manhã, o Cine Centímetro recebeu a primeira sessão de “Direto do Set”, um bate papo entre o curador Hernani Heffner e o músico homenageado pelo festival Wagner Tiso, que contou sobre sua vasta experiência na composição de trilhas sonoras de diversos filmes que passam por “Besame Mucho”, “A Ostra e o Vento” até “Os Desafinados”, recente filme de Walter Lima Jr. que foi exibido às 22h no espaço Cine-Tela Brasil. Trechos do bate papo em breve serão postados aqui no blog, então nem vou me ater muito ao conteúdo agora.

Às 18 horas fui ver uma sessão de curtas experimentais no Cine Centímetro, enquanto o Frederico partia para o Milímetro para assistir o documentário “A Cidade é uma Só?”, do diretor Adirley Queiroz.
A sessão de curtas experimentais é uma iniciativa inédita no festival, e buscou fazer um mapeamento sobre a recente atividade deste segmento cinematográfico, já que é tão difícil de ter acesso a essa produção em dias atuais. O cinema alternativo é, por sua vez, muito restrito a festivais e cineclubes, fato que também ocorre em maior frequência com os curta-metragens. A produção experimental então é ainda mais restrita, visto que poucos festivais possuem uma janela dedicada a esse tipo de exibição, além do fato de as galerias e exposições de arte investirem mais no segmento da vídeo-arte, e não do cinema tradicional realizado em 35mm’s.

A exibição contou com quatro curtas cariocas, além de um francês. São estes: “Monocelular”, de Felipe Cataldo; “Senhorita Fotografia”, do grupo EtaAquarídea; “Daqui Tudo Parece Pequeno”, de Larissa Siqueira; “Maçã Com Sabor de Gasolina”, de Cristiana Miranda e “Plus Aucune Mémoire Vive”, de Cédric Dupire e Marie Richeux. Estes curtas discutiam sobre assuntos comuns, como a questão do indivíduo diante da sociedade contemporânea, da permanência da imagem e diferentes explorações das camadas de som, além de é claro, da performance dos corpos de seus atores e atrizes. Brincando com a textura, desassociando a imagem do som e explorando a imagem e o valor das palavras escritas em contraposição à arte performática, os filmes demonstraram um pouco do panorama do cinema experimental que, por mais que tenham quase todos origem na cidade do Rio de Janeiro, não se prendem a uma determinada geografia e revelam questões não só livres de uma localidade como também de uma temporalidade que se baseia em questões da relação da sociedade moderna com o audiovisual em geral.

Maçã sabor de Gasolina

Depois da sessão, na mesma sala se iniciou a projeção de “No Lugar Errado”, longa-metragem do Coletivo Alumbramento, formado pelos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e pelos primos Pedro Diógenes e Guto Parente. O filme foi o primeiro a ser exibido em caráter de pré-estreia no Festival, em sessão para convidados, o que não impediu que a sala lotasse de qualquer forma.

Alguns problemas técnicos prejudicaram a exibição, em especial o fato de a luz do projetor 35mm’s ter queimado logo antes do plano final, o que impediu que os créditos finais fossem apresentados, além da dificuldade em definir o enquadramento ideal da janela de exibição, já que o cenário completamente preto do filme impedia inicialmente uma identificação ideal do quadro. Apesar dos problemas, deu pra assistir e compreender o filme, que se trata de uma adaptação para o cinema da peça de teatro “Eutro”, dirigida por Rodrigo Fischer.

No Lugar Errado

No Lugar Errado, dos Irmãos Pretti e Primos Parente.

O filme/peça gira em torno do reencontro de dois casais de amigos, onde a relação de poder, mentiras e ânimos acalorados pelo consumo do álcool afetam diretamente a relação entre eles, revelando um lado obscuro da amizade, que se deteriora e se reconstrói a cada instante, culminando em um final apocalíptico e controverso, que certamente causa inquietações que persistem mesmo além da sala de cinema – o que por si só já é um grande mérito independente do resultado. Ainda um pouco incomodado, achei que não seria a melhor hora pra assistir outro filme logo em sequência, por isso deixei passar a sessão seguinte (“Abismo Prateado”, de Karim Aïnouz) e fui dar uma volta pela bela cidade de Conservatória, que até então eu conhecia pouco, pra tomar uma cerveja com os realizadores do filme em questão e descansar para o próximo dia… mas isso eu continuo a contar na próxima postagem.