Por Alexander Aguiar

6º Festival Cinemúsica

O sábado era, de fato, o último grande dia do festival, já que no domingo só teria o encerramento oficial. Apesar de ser um festival bastante curto em sua duração – apenas quatro dias – é interessante ver como um panorama da recente criação audiovisual no Brasil é exposto de forma tão satisfatória, exibindo filmes e trazendo junto ao público a presença de cineastas que tem se destacado não só recentemente na produção cinematográfica nacional, mas também em sua história, caso dos cineastas Nelson Pereira dos Santos e Eduardo Coutinho.

Logo pela manhã, os cineastas supracitados deram continuidade ao evento “Direto do Set”, que é na verdade um grande bate-papo entre o curador Hernani Heffner e os convidados homenageados, posteriormente abrindo para questões do público. Apareceu tanta gente pro evento, que ao invés de ser no CineCentímetro (que possui apenas 60 lugares), o bate papo foi feito ao ar livre no próprio Rancho Centimetro, com aproximadamente o dobro de pessoas que a sala de cinema comporta. Tanto Nelson quanto Coutinho falaram sobre sua longa trajetória na produção cinematográfica, dando ênfase especificamente na questão do som, relatando sobre a evolução da técnica de captação, a utilização da dublagem nos filmes antigos, e as facilidades que gravadores portáteis como o Nagra proporcionaram ao cinema direto. Ao longo do dia, tivemos a oportunidade de bater um papo com o Coutinho e também com a lenda-viva do som do Cinema Brasileiro, Walter Goulart. Os vídeos em breve serão postados por aqui.

“Direto do Set” com Nelson Pereira dos Santos e Eduardo Coutinho.

Às 16 horas, no CineMilímetro, o Frederico e eu fomos assistir o novo filme do diretor Luís Rocha Melo (que entre outros, foi diretor do grandiosíssimo curta “Que cavação é essa?”). Seu novo filme, “Nenhuma Fórmula para a Contemporânea Visão do Mundo”, também sofreu com problemas de exibição, e teve de ser interrompido duas vezes, por conta de problemas com os codecs e o computador, até que enfim tudo se normalizou e o filme foi projetado normalmente. O filme parece ser feito em um grande improviso, sem muita preocupação com questões técnicas e estéticas, e soa no fundo como uma grande piada que relaciona a arte contemporânea, a crise de identidade em jovens adultos e citações bem-humoradas que remetem a filmes de Cassavetes não só pelo improviso, mas pela referência e homenagem ao ator Bem Gazzara, um dos fetiches do diretor norte-americano. O filme conta a história de Carola, que é contratada para escrever 42 peças de teatro junto do diretor polonês Karkovski, que comemora seus 42 anos de carreira dirigindo peças teatrais em homenagem ao deus Pã. Em meio a reviravoltas, planos longos de caminhadas noturnas pela cidade e um escracho com a situação da “arte mainstream”, o filme nos proporcionou algumas risadas e gerou controvérsias quanto à sua seriedade e suposta pretensão “nouvelle-vaguesca”.

“Nenhuma Fórmula Para a Contemporânea Visão de Mundo”, de Luís Rocha Melo.

Às 18h o Frederico continuou no Milimetro para assistir o documentário “Vou rifar meu coração”, da cineasta Ana Rieper. Como eu já tinha visto o filme anteriormente, parti para a sessão de curtas que ocorreria no Centimetro no mesmo horário.

Os curtas exibidos foram “Os Mortos-Vivos”, de Anita Rocha da Silveira; “Memórias Externas de uma Mulher Serrilhada”, de Eduardo Kishimoto e “Com Vista para o Céu”, de Allan Ribeiro. Os três filmes integravam a sessão “Curta Light”, que premiava aspectos sonoros em curtas-metragens brasileiros. Devo aproveitar para elogiar o curta de Kishimoto, que tive o prazer de ver pela terceira vez e se consolida cada vez mais como um dos melhores filmes realizados recentemente no Brasil. Captando de forma simples e direta o espírito do nosso tempo, “Mulher Serrilhada” discute a questão do direito de imagem, o cruzamento da vida real com a virtual, a exposição indesejada e reflete em sua estética suja – mas fidedigna às imagens virtuais contemporâneas em um mundo que cada vez mais compartilha suas imagens em vídeos feitos com câmeras caseiras e webcams em sites como YouTube e similares – o desespero de uma mulher diante da exposição de sua imagem até a catarse completa que nos confronta, nos faz refletir sobre qual a nossa posição diante do filme: a de cúmplices ou de opositores – o que geralmente causa um choque na maioria de seus espectadores, um grande mérito. “Os Mortos-Vivos”, por sua vez, é um filme que flerta com o surreal e o fantástico, diante da premissa daqueles que perdem alguém que amam, em histórias que se cruzam, aliando a futilidade com que grande parte da vida juvenil é encarada com a da descoberta da intensidade dos sentimentos – tudo isso aliado a um belíssimo trato de som e imagem. “Com Vista Para o Céu” não poderia representar melhor o universo sonoro que o festival se propõe a homenagear: o filme se dá em um condomínio que aproxima sonoramente seus moradores, mas com a questão das grandes cidades onde todos se amontoam, mas poucos se conhecem. O som que invade a intimidade alheia acaba revelando nuances de suas personalidades, e toda a interação entre as pessoas em um mesmo espaço-tempo é somente sugerida, sem que a interação corporal seja inerente a essa realidade. Um filme de gestos e sugestões, explorando o extracampo da imagem para contar sua história. Simples mas funcional.

“Memórias Externas de Uma Mulher Serrilhada”, de Eduardo Kishimoto.

À noite, alguns outros filmes foram exibidos no festival, mas como eu já conhecia grande parte deles, resolvi retornar ao local somente no fim da noite, para ver a performance do grupo EtaAquarídea (que já tinha exibido um filme no dia anterior na sessão de curtas experimentais) em homenagem ao cineasta recém-falecido Carlos Reichenbach.  Com projeção de imagem, performances corporais, música experimental ao vivo e o coquetel de encerramento do festival, o grupo se apresentou enquanto os convidados se reuniam no Rancho Centimetro para aproveitar as últimas horas do festival. Depois de muita cerveja e tira-gosto, a noite acabou – assim como as exibições de filme no festival.

Minhas impressões sobre o festival foram as melhores possíveis. Cidade agradável, pequena – fato que eu sempre encarei como fator positivo em festivais, já que esse “confinamento” acaba aproximando o evento da comunidade, fazendo com que o meio viva o festival, e não tornando-o algo restrito a cinéfilos, críticos e realizadores – e de gente acolhedora e boa comida. Espero ansioso pela próxima edição, e gostaria mesmo que o festival durasse mais tempo, pois é de fato triste deixar Conservatória em tão pouco tempo.

Em breve fotos e vídeos da cobertura do festival serão postados por aqui, não deixe de conferir.