Aula Magna com o cineasta e produtor Roberto Farias

Obs.: Estou publicando essa transcrição da aula que rolou na UFF, durante minha estada no Rio de Janeiro em 2011, por conta do recente artigo do Newton Cannito, onde o roteirista e ex-Secretário do Audiovisual do MINC faz uma menção ao Roberto Farias.

TRANSCRIÇÃO 

  1. Não me acho merecedor de todos as falas e elogios. Comecei a me interessar pelo cinema desde pequeno; desde bebê de colo quando frequentava o cinema de Friburgo. Cresci e vi amigos crescerem dentro do cinema. O cinema está na minha memória. As coincidências da minha vida me levaram ao cinema.
  2. Tudo que fiz foi por precisão. Queria fazer cinema e fui fazer. Vi que era necessário lutar pelo cinema brasileiro e fui participar do sindicato, conselhos e entidades. Sempre entendi que o cinema necessitava de um “exército”. Quando comecei no cinema havia poucos diretores. Para o cinema ser industrial necessitava de mais gente. Não fiz universidade, vim para o Rio de Janeiro aos dezoito pra fazer cinema. Disse a minha família que iria fazer um pré-vestibular para o curso de arquitetura. O curso era noturno e, então, de dia eu ia no Estúdio Atlantida atrás de uma promessa de trabalho, que depois se concretizou. Fico pensando nesses anos, se não seria melhor eu ter feito um curso, vejo uma dedicação e um olhar mais abrangente de quem fez curso. Que é diferente da visão simplista de mecânica dos práticos. Para escapar disso é necessário ter uma visão maior, uma visão de mundo. O cinema só tem importância se for para refletir sobre esse olhar. Essa é a possibilidade que a universidade possibilita. Eu demorei para perceber isso, demorei anos para ter essa visão. Sempre tive uma preocupação com a sustentabilidade do cinema. Entrei atrás de um emprego. Com o tempo tive essa preocupação e uma preocupação com o público. Fazer cinema, sim. E refletir sobre o que acontece, sim. Quando eu comecei se fazia filme com dinheiro quente, sem o financiamento público. Essa possibilidade que vocês tem de ter mestres lhe dá um ponto de vista mais amplo. Eu posso vir aqui e falar de questões práticas de como se faz um roteiro, se coloca uma câmera, sobre a política audiovisual. Esse contato com os mestres acelera em anos o que demorei para aprender na prática. Ainda hoje estou buscando, procurando aprender.
  3. Eu me lembro de uma entrevista que dei a 2 críticos quando estava fazendo “Cidade Ameaçada”, meu 3º filme. Porque nessa época, quem escolhia quais filmes iriam para Cannes era o Itamaraty e eu fui escolhido. Foi uma surpresa, pois do nada eu que tinha feito duas chanchadas fui pra competir em Cannes com Bergman e Felini. Os críticos vieram me perguntar em qual corrente o meu cinema se localizada, quais eram as minhas influências e eu não sabia responder. Disse que o que me interessa era a vida, o que a humanidade oferece para você captar e por nos filmes. Eu não fiz escola nenhuma e vendo os meus filmes se pode ver isso. Achava um absurdo eles quererem me rotular. Quando lancei esse filme ouvia dizer que cinema urbano era com Roberto Farias. O outro filme “Selva Trágica”, fui fazer na fronteira com o Paraguay com pessoas carregando kilos de chá mate nas costas. Fiz três filmes com o Roberto Carlos. Consegui ganhar bastante dinheiro, eduquei os meus filhos. Nessa época eu iria fazer um quarto filme com o Roberto Carlos, aí falavam: conhece o Roberto Farias, o diretor dos filmes do Roberto Carlos. Eu parei, comecei a me sentir completamente vazio e estava sem ideias para fazer filmes com eles. Foi um momento muito feliz da minha vida, conheci várias partes do mundo. Me permitiu ampliar a minha visão. Nessa época tinha visto que filmar em São Paulo e Rio de Janeiro era o mesmo valor que filmar em Tóquio e Nova Iorque. Oras, fui filmar nesse locais!
  4. Os exibidores não gostam dos produtos brasileiros, preferem os filmes estrangeiros que já vem com divulgação e material impresso. Eles dizem que o produtor de cinema brasileiro sem dinheiro já é chato, imagina com dinheiro… É necessário lutar por cotas e pela inserção dos filmes brasileiros. Disseram que eu tinha que ir pro sindicato, entrei como secretário por mandatos; depois fui pra presidência e aí entrei na EMBRAFILME porque precisavam de um cineasta pra dirigir o órgão. Antes de mim, nunca alguém de cinema ocupou a direção. Antes de eu entrar, a pessoa que gerenciava tinha vindo do INSS. Iríamos lá falar com quem ocupa a cadeira, falavamos da luta do cinema brasileiro e etc. Eles sempre diziam que iriam ouvir todos os lados, todas as partes. Era sempre a mesma coisa e nunca se fazia nada, eram todos “políticos”. Quando eu entrei lá, não havia necessidade de me catequizar. Eu já sabia o que fazer, entrei lá e pude fazer rápidas mudanças na empresa. Eu e a equipe que entramos não tinhamos vínculo com carreira pública, não se tinha interesse em ficar muito tempo no serviço público. Fizemos umas mudanças na organização e mudamos como era feito o financiamento dos filmes. Nunca fizemos análise de méritos dos roteiros, respeitamos o máximo a liberdade de expressão. Diziamos que a questão de censura é com o Ministério da Justiça, que ali era Ministério da Educação e Cultura. Dizem que conselho não se dá, se vende. Eu vou dar um: lutem o máximo pela liberdade de expressão.
  5. Muita coisa mudou no cinema e no país. O Brasil cresceu e ficou mais miserável. As salas de cinema ficavam no centro ou em áreas que se valorizavam, o que encareceu a manutenção.Veio as televisões. As salas forma fechando, se tornando igrejas e o mercado encolheu quando veio os shoppings. As salas de cinemas eram o parâmetro para o preço de vinculação em outras mídias: TV, Homevídeo e etc. Notou-se que não se podia mais fazer filme sem apoio do Estado. Depois veio a renuncia fiscal. Infelizmente, no Brasil, os gestores e a classe política tem uma mentalidade que cineasta é tudo fracassado, que não sabe ser empresário. Então foi feita a política de renúncia fiscal, onde se delegou aos empresários o “investimento” no cinema. Isso era melhor que nada. Esse caminho foi o que foi trilhado e é o caminho que os organismos de cinema no Brasil continuam seguindo.
  6. Só que, atrás da renúncia fiscal vem um preço altíssimo para pagar tudo isso. Mais que a burocracia na prestação de contas, hoje o cineasta tem que agradar quem vai aprovar o seu projeto e quem vai dar esse recurso. O cineasta perdeu o seu poder de escolha. Hoje se eu quiser fazer um filme com o dinheiro do meu bolso e quiser cobrar ingresso terei que pagar o CONDECINE, que irá alocar essa verba no Fundo Setorial. Se eu quiser usar esse dinheiro que tiraram de mim, eu terei que fazer um projeto, com roteiro e responder vários questionários para tentar pegar essa grana. O mais estranho é que em 19 anos de Renúncia Fiscal, 10 anos de ANCINE, tem que se submeter o filme a ser aprovado por uma comissão que nem sempre é meritocrática. Começa uma distorção enorme, já que as escolhas ficam a mercê de outros interesses, como quem é o parente do realizador, quem tem influência política. Hoje, após a retomada, temos muito mais cineastas e possibilidades de fazer filmes. Mas não temos a sustentabilidade como se tinha na época do cinema feito com dinheiro privado, onde se sabia quando o filme seria feito, lançado e quando se teria outra produção. Hoje isso não existe. Só tem estabilidade quem faz publicidade e são poucos.
  7. Com a aprovação do PL 166, a lei do cabo, conseguiu-se abrir o mercado. Vai quadruplicar os recursos. Acontece que isso é um lado de se impulsionar a produção. Mas existe outro lado que é a realidade, o contexto da TV por Assinatura no Brasil tem em torno de 12 milhões. O que acontece: (i) como se tem poucos assinantes, se tem pouca publicidade por ter menos público e a publicidade paga menos ou nem anuncia; (ii) ou seja, esses canais podem pagar pouco pelos filmes, séries e programas que o pessoal faz pra vender lá; (iii) a TV aberta privada, que surgiu no Brasil em uma época em que não se tinha gente de cinema ou produtores independentes para sustentar uma produção, os canais tiveram que criar a sua própria produção, se existe um indústria audiovisual ela é televisiva; (iv) a Lei do Cabo trás recursos, mas o que eu vejo é que nesses 19 anos não se viu uma forma de trazer recursos privados para a atividade, vivesse uma euforia atoa; (v) se vir um gestor, presidente ou “presidenta”, e for analisar o investimento público nesse setor, nesse mercado, vai se ver resultados ínfimos e nenhuma ocupação da produção brasileira no mercado; (vi) me pergunto, quando vai sair uma indústria em um país com o mercado ocupado, em que não se consegue atrair investimento privado para a produção em uma atividade hostil?
  8. Na época pre-EMBRAFILME, o Tamberline pai era cunhado do Roberto Campos e fazia parte de um grupo de paulistas que lutava para que se constituísse mecanismos estatais para apoiar o cinema, para acabar com essa desigualdade na competição entre o cinema nacional e o estrangeiro. Quando o Roberto Campos assumiu um ministério, não foi dificil o Tamberline convence-lo a criar o GECINE – Grupo Executivo de Cinema, igual ao que o JK propôs para instituir a indústria automobilística Brasileira. O que foi feito na gestão JK, foi proibido por automóvel estrangeiro no Brasil. Tiveram que começar a fazer eles no Brasil. Ninguém se perguntou o que aconteceria com os fornecedores de carros estrangeiros, eles tiveram que mudar de ramo. Com o cinema não dá pra fazer isso, dizem que o cinema brasileiro é ruim, que o Brasil não pode se fechar para o mundo. Bem, apropriaram-se de uma medida do Getúlio Vargas de reserva de mercado. Essa medida teve vigência por muito anos, mas não foi simpática. Dizia-se que não se pode fazer as pessoas veram filmes por decreto. Bem, ninguém é obrigado ir ao cinema.
  9. O Tamberline pai foi mais longe, fez um cálculo sobre o que era investido no cinema brasileiro na época do GECINE. Notou-se que se tinha um déficit nessa entrada e verba. Criou-se o INCE, para fiscalizar o mercado e criar uma compensação no custo de receita do cinema como um todo. Problemas com os bilhetes padronizados, muito roubo nos borderôs. Então se criou um fundo que dividiria a receita entre o exibidor e produtor. O adicional de renda veio para desafogar o produtor. Essa contribuição era tirada da própria atividade e se chamava de prêmio para não pagar imposto de renda. Essa forma é a única que eu conheço que é capaz de atrair investimento privado. Na época eram 3.500 salas, hoje são 2.100 e as salas são menores. O adicional de renda é a única maneira que eu conheço de atrair um investidor para o cinema; os filmes eram premiados segundo a sua performance de público, os filmes experimentais e autorias recebiam um “plus”, e eram escolhidos por uma comissão.
  10. Se você analisa hoje, que são investidos por renúncia fiscal 2 bilhões na produção de filmes no Brasil, e vê que os filmes não tem nenhuma responsabilidade em se ter público. A bilheteria dos filmes brasileiro é de 200 milhões. E ver que a lei do cabo só aloca verba na produção e não na difusão. Por que não fazer investimento após a produção, após o filme feito na bilheteria? Acho que vai aumentar o mercado em 50% e vai atrair a iniciativa privada. O que significa isso? Mais liberdade e não ter que ficar prestando contas com o governo. E se rolar o prêmio adicional de renda, não tem que prestar contas da verba porque é prêmio. A ANCINE tem 200 funcionários pra ficar averiguando a prestação de contas, ver o gasto com sanduiches. E fica aumentando a burocracia por causa da defesa do dinheiro público. Se por a iniciativa privada para investir, você libera a burocracia pra fazer outras coisa. E quanto mais a iniciativa privada for posta para trabalhar no cinema, mais libera o cinema do financiamento. Acontece que hoje, se alguém for fazer um filme por conta não será atendido como nenhuma política pública para o cinema.
  11. Sinto um certo totalitarismo nas provisões que se inventam para dinamizar o cinema. E nada garante uma continuidade ou um planejamento para os produtores fazerem os seus filmes. Todo mundo tem que se submeter ir atrás de renúncia e de editais. E todo mundo sabe que com a ampliação do campo e do barateamento da produção pela convergência digital, mas não se está se preparando para isso. Cinema é liberdade e o cineasta não pode ficar escravizado pelo Estado.
  12. ANCINAV: É uma questão polêmica. Votei contra a ANCINAV, eu achei que havia uma tentativa de dominar de maneira mais ampla a TV, isso seria um passo ao totalitarismo. Várias emissoras faliram com o tempo porque liberaram o tempo de sua programação ao cinema estrangeiro, ficando dependente dessa produção. A GLOBO percebeu uma coisa: que muito embora pudesse vincular o produto estrangeiro que é mais barato, preferiu investir em conteúdo próprio para se fortalecer e ter independência, além disso esse produto tem mais comunicação com o público por questões culturais. A Globo começou a fazer a semana do cinema brasileiro por minha causa, fui numa reunião lá e reclamei da falta de espaço. Mandei por e-mail um plano de ação, que posteriormente foi implementado. Dessa discussão saiu o artigo 3º A – que permite que as TVs façam coprodução com o cinema. A Globo é a única emissora que vincula produção nacional, 80 filmes por ano. É de madrugada, é… Mas os 5 pontos de IBOPE na madrugada equivale a 5 milhões. Acho difícil aprovar isso de maneira democrática, tem que conversar e discutir. No início a Globo era contra, posteriormente achou interessante e apoiou a proposta. O problema é que acabou-se criando um incentivo para a TV no modelo do cinema, onde as majors gringa investem em produção de filmes brasileiros através da remessa de lucro ao exterior. E quem paga esse imposto não é a TV, mas o dono do produtor. Foi feito uma grande ginástica com a Receita Federal para permitir que se use essa verba. Poderia dar o incentivo do próprio imposto da TV.
  13. Cinema de intervenção social: o caminho para chegar a grande tela é grande. A questão é despertar o interesse do outro para o filme ou para a questão. Os jovens de hoje estão derrubando governos, logo pinta uma ideia no twitter. A denuncia social, hoje em dia é mais fácil e não se tem mais a necessidade de pegar 8 milhões e fazer um filme para denunciar; hoje pode ser feito de um computador, a denuncia chega muito mais rápida ao público que na tela de cinema. Estou esperando isso acontecer. Na minha época quem fazia esse intervenção era uma classe média que tinha uma sensibilidade social. Qualquer hora sai uma coisa parecida, tá pra acontecer.

Transcrição feita por Frederico Neto.