Começamos, a partir de hoje, a publicar uma série de textos sobre as ações culturais da FCC – Fundação Cultural de Curitiba e por outros aparelhos culturais – sejam públicos ou privados. A proposta é avaliar criticamente os trabalhos realizados, principalmente na área de cinema – onde a inércia e os equívocos são maiores em Curitiba. Segue um editorial feito pelo Núcleo de Cinema do SESC Paço, quando este era organizado pelo crítico e curador Nikola Matevski. O agradeço pela presteza em ceder o texto feito para o catálogo do SESC Paço (março/abril/maio 2011), a página do texto pode ser baixada nesse link: Paço2011_ABR_MAI_JUN-PG_35

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por Núcleo de Cinema do SESC Paço (Nikola Matevski)

Em sua primeira agenda de programação de 2011, a Cinemateca Portuguesa perguntava-se em seu catálogo “o que é programar uma cinemateca hoje?”. Além de tentar responder à celeuma que seguiu o falecimento, em 2009, de João Bénard da Costa, intelectual e crítico cujo gosto e visão de cinema imprimiram à instituição portuguesa uma das melhores programações do mundo, os novos gestores indagaram-se sobre o papel do “museu do cinema” diante da atual pulverização dos meios de produção e exibição de filmes.

O resultado desse questionamento é um escopo de programação que abraça desde os clássicos até os novos cinemas, uma diversidade que reflete o que o catálogo define como “prazer de mostrar filmes” dado num deleite impulsivo oriundo do cruzamento entre o ímpeto do gosto e as possibilidades práticas, criando um desenho de programação um tanto desequilibrado, mas que responde mais vivamente “à alegria de, faça-se o que se fizer, ficarem sempre coisas por ver e por mostrar.”

Não quero enxergar na argumentação dos outros uma desculpa para justificar as próprias limitações, mas apontar que a programação de cinema do Paço da Liberdade, que o leitor pode consultar neste guia, busca responder e experimentar de maneira própria os desafios de atuação de uma sala de cinema circunscrita não apenas pelo tempo, pelo “hoje”, mas também pelo espaço: Curitiba, Paraná, Brasil. A resposta a esse problema é um campo minado: entre objetivos a conduzir a caminhada, há uma série de passos em falso a se evitar.

O primeiro talvez resida nas armadilhas do chamado “cinema paranaense”, expressão cercada de um ufanismo suspeito e associada à necessidade (fundamental, sem dúvida) de se valorizar a produção cinematográfica local. Essa defesa dos pinhões e das araucárias muitas vezes se confunde, infelizmente, com os dois lados de uma mesma moeda – o provincianismo bairrista – que, ou transforma a defesa daquilo que é regional no isolamento do mundo que beira a xenofobia, ou aceita, de cabeça abaixada, a submissão colonizadora (sempre embutida de um complexo de inferioridade) a uma supremacia imaginada daquilo que é estrangeiro ou proveniente do eixo Rio-São Paulo.

Outra confusão é aquela que iguala a falta de visão institucional com o jargão de clichês desbotados que pautam as administrações públicas, uma terminologia que inclui palavras como “democratização”, “inclusão”, “abertura” ou “diálogo com a sociedade”, mas que tem como efeito prático a redução do programador cultural a um corretor imobiliário que agencia a ocupação do espaço público com total ausência de qualquer tipo de responsabilidade institucional, social, curatorial ou artística.

Não pode haver dialética em um vácuo de agentes culturais contentes com o silêncio relativista que permite a cada indivíduo retirar-se confortavelmente da vida pública para repetir para si seus próprios mantras e crenças pessoais sob o eterno manto do “ponto de vista” e do “gosto que não se discute”. Ora, para haver qualquer diálogo, alguém precisa começar a falar! Isso significa propor, colocar as cartas à mesa, afirmar e dar a cara para bater.

A sala de exibição do Paço da Liberdade é aberta à comunidade. Isso, porém, não denota uma postura passiva em que o espaço sofre uma ocupação aleatória a partir de requisições da sociedade. A instituição terá, pelo contrário, papel propositivo, buscando fomentar com inovações de programação, repertório e curadoria seu diálogo com o público. Todos os filmes merecem ser exibidos e preservados, mas a responsabilidade do programador é criar um contexto adequado que dê sentido a essas ações de circulação.

Valorização da cinematografia local não será alcançada meramente com a exibição de materiais realizados em Curitiba e no Paraná, mas com a criação de um ambiente propício para apreciação e pensamento dessa produção, inserindo os filmes em um contexto que cruza as referências a partir de filmografias de realizadores de outros estados, países ou momentos históricos. Permite-se assim ao público e ao cineasta local uma oportunidade de se localizar diante de um panorama cultural vasto e profundamente fragmentado.

Retomando a deixa do catálogo português, podemos afirmar que a programação de cinema dos meses de março, abril e maio do Paço da Liberdade, muito longe do porte e mesmo qualidade da instituição lusitana, cria, num misto de ações próprias e aquelas desenvolvidas ou recebidas da sociedade, um emaranhado que com suas pontas soltas e desproporções espera desempenhar, antes de tudo, o papel de ocupação propositiva do espaço público.

Fonte: catálogo com a programação do SESC Paço – abril/maio/junho de 2011