colaboração CLTR+C CLTR+V analógica do Nikola Matevski

Trata-se de um material da exposição “Múltiplo Leminski”, que está em cartaz no MON.

Trata-se de um material da exposição “Múltiplo Leminski”, que está em cartaz no MON.

Segue a transcrição do texto para uma reflexão sobre as amarras do provincianismo curitiboca:

FALTA DE ABERTURA PARA OUTROS CÓDIGOS

Escritor escreve. Pintor pinta. Cartunista desenha. Não vamos misturar assuntos nem trocar as bolas.

Essa é a mentalidade que impera em certas faixas da nossa inteligência letrada e escrevedora.

Mas muita boa literatura nasceu do contato com outras linguagens, códigos e artes.

Pound era músico. Baudelaire – crítico das artes plásticas. Oswald estava muito por dentro das artes plásticas. Etc.

Hoje, o teatro, o cartum, a música popular e o cinema, aproximam-se cada vez mais do texto mais radical.

Acho que os escritores deveriam encurtar sua viagem, indo em direção a eles. Procurando se interessar por novos códigos.

Seus problemas. Seus recursos. Suas conquistas. Suas tendências. Isso só poderia enriquecer o texto. Seu texto. Qualquer texto.

CONCEPÇÃO “JONALÍSTICA” DA LITERATURA

O discurso jornalístico é um discurso “social”.

O discurso literário é um discurso “anti-social”.

Enquanto o primeiro é altamente codificado, em termos de linguagem, e processa-se através de cânones e fórmulas consagradas, para garantir a imediatidade da comunicação, através da transparência da forma, o discurso literário (poesia ou prosa) é opaco. Ao mesmo tempo, mais denso e mais poroso. Abrindo margens maiores de interpretação. De discussão. De dúvidas. Seus estímulos são mais ricos. Mais prenhes de conseqüências.

Ora, a atividade literária, em Curitiba, é como que policiada pelo super-ego do jornalismo. Muitos escritores – como em toda parte – são jornalistas.

Esclareço que não vai nisso nenhum resquício de preconceito contra o jornalismo. Ele é um discurso da mais alta importância, forte e necessário. Mas literatura é outra coisa.

A comunicação entre os dois discursos é sempre possível, claro.

Policiada pelo jornalismo e suas exigências imediatamente documentais, nossa literatura, porém, não consegue transcender os limites da ambiência em que ocorre.

E morre no dia seguinte, como qualquer jornal.

AUSÊNCIA DE DEBATES / AUSÊNCIA DE CRÍTICA

Apontei, numa ocasião, que Curitiba, tendo produzido contistas e poetas, não produzia críticos.

Ninguém aqui exerce a crítica, o exercício da meta-linguagem que implica em análise, estudo e julgamento.

Os que exercem a crítica são comentaristas superficiais ou professores universitários que a praticam como decorrência de seu ofício e profissão.

Tirando a velha guarda dos Temístocles Linhares e dos Wilson Martins, de quem só se pode esperar atitudes conservadoras e reacionárias, tempos Vicente Ataíde, João Manuel Simões e mais alguns que nunca se decidem a partir para uma militância agressiva, selecionadora, judicativa, que constitui a essência da crítica viva, criadora, ativa, fecundante (vide Mario Faustino, vide Haroldo de Campos).

Que saudades de Sergio Rubens Sossella, nos anos 60!

A contrapartida da ausência de crítica no nosso parque literário é a ausência de debates, de discussões.

Os escritores curitibanos não têm um lugar, um tempo, um modo de se encontrar, a não ser em nível de círculo de amizade. A ampliação desse círculo não seria de desprezar.

Então, o escritor curitibano não ganha cancha de discutir, apresentar idéias em público, defendê-las, atacar, impor, receber, enriquecer.

Assim como não se desenvolve uma linguagem, não se desenvolve uma metalinguagem.

Nem o novo discurso, nem o discurso novo sobre o novo discurso.

POUCOS RELACIONAMENTOS COM OUTROS CENTROS

Deve haver coisa muito interessante acontecendo em Porto Alegre. Em Belo Horizonte. Em salvador. Em Fortaleza. Em pontos insuspeitos de São Paulo. No Rio. Revistas. Boletins. Grupos. Mini-editoras.

Acho que o gênero epistolar é uma dos que a gente devia praticar mais.

Receber coisa de fora. Cultivar relações à distância.

Influenciar para ser influenciado. Ser influenciado para influenciar.

Paulo Leminski
Pólo Cultural – Curitiba, 30 de março de 1978.

One thought on “Repensando a FCC: Paulo Leminski – a inteligência provinciana

  1. Acho que evoluiu um pouquinho desde 1978 para cá esse intercâmbio cultural, mesmo porque a internet é uma beleza para contribuir com isso! Interessante que esse texto do Paulo L. ainda sirva em diversos aspéctos, por exemplo no que se refere a crítica. A crítica é uma arma para defender pontos de vista. Dependendo quem a usa, pode ser fútil, cheia de baboseiras, superficial e preconceituosa. Precisamos de críticas inteligentes né Frederico acho que essas são provocadoras e que fazem a gente pipocar de idéias! O caminho é esse mesmo… Críticas inteligêntes para fazer gestão de cultura inteligente!