A corporação do cinema brasileiro necessita rever o seu trauma frente ao colapso e extinção da Embrafilme em 1990. Essa questão me pareceu “traumática” no ano passado, nos episódios fatídicos de embate entre uma nova geração de realizadores com as autoridades do cinema carioca, cuja a força se fez presente, ao desespero da corporação, no Festival do Rio de 2014, do qual fui um dos antagonistas ao status quo, dada a militância na Associação Brasileira de Documentaristas do Rio de Janeiro. Neste episódio me chamou atenção a declaração de Cacá Diegues, em sua coluna no Jornal O Globo, a qual reproduzo trechos:

Aproveitando o assunto cinematográfico, vou meter minha colher onde não fui chamado. O cinema brasileiro vive um momento fértil de sua história, e se expande com diversidade regional, geracional, ideológica, artística. Além das comédias urbanas, grandes sucessos de bilheteria, estamos produzindo belos filmes com reconhecimento nacional e internacional, como “O som ao redor”, “Tatuagem”, “Praia do Futuro”, “Getúlio”, “O lobo atrás da porta”, “Hoje não quero voltar sozinho”, e outros. No recente Festival de Paulínia, dos noves filmes em competição, seis eram de realizadores estreantes. O mesmo fenômeno se repetiu nos festivais de Gramado e do Rio.

No me parece que sejam poucos títulos, em comparação com os sucessos de bilheteria; mas os jovens responsáveis por esses filmes têm o direito legítimo de se manifestar por novos modos de incentivo à produção de suas obras. Mas é preciso tomar cuidado para não jogar fora o bebê junto com a água do banho.

(…)

É preciso tomar cuidado, muito cuidado, para não repetirmos os erros que enterraram a Embrafilme. Fui testemunha desse desastre e sei como ele começa.

Fica evidente a potência deste trauma no imaginário da corporação, que nomeou vilões e comemorou a “salvação” do cinema nacional através da renúncia fiscal. Destaco a percepção sardônica, logo após a extinção da referida empresa estatal, manifestada por José Inácio de Melo e Souza(1):

O atabalhoamento dos fatos ainda impede uma visão clara sobre a ultrapassagem ou a permanência da razão dualista. O que podemos avaliar com alguma certeza no nosso mundinho de imagens verde-amarelas é que em março de 1990, depois de quase cinco anos de crise, o meio cinematográfico aceitou, sem maiores discussões, a extinção da Embrafilme, a reserva de mercado e o fim do nacionalismo protecionista. Collor não inventou nada; o áulico paraibano só atendeu aquilo que Hector Babenco, Sílvio Back, Carlos Reichembach, Chico Botelho, Carlos Augusto Cailil, Roberto Farias, Nelson Pereira dos Santos e a crítica na imprensa liberal pediram. Depois de cinco anos de crise todos carimbaram o seu passaporte para o mercado neoliberal, e sem bilhete de volta. Só houve frustração quando o avião decolou. Aí, todos perceberam que tinham ido para o espaço, literalmente. De Deus, Collor passou a ser o Diabo na Terra do Sol.

Também é evidente a lacuna de dados a respeito do fim do ciclo Embrafilme, uma vez que, ao averiguar o que aconteceu, o que se encontra é uma espécie de prólogo necessário para o estabelecimento do “momento fértil”, em que o cinema brasileiro se encontrava. Exemplo, neste sentido, é contido na pesquisa de Maria Izar Marson (2), sobre o ciclo cinematográfico entendido como “cinema de retomada”, ao qual estabelece o seguinte:

O modelo de produção cinematográfica adotado pela Embrafilme, baseado em patrocínio direto do Estado, já vinha sendo criticado por cineastas, pela mídia e pela opinião pública. Havia problemas na empresa em relação à inoperância, má gestão administrativa, favoritismo e não cumprimento de compromissos. Mas a extinção desse modelo, sem sua substituição por outra política para a produção de filmes, fez com que o cinema brasileiro sofresse uma drástica queda em sua produtividade, chegando a níveis alarmantes: em 1992, por exemplo, apenas três filmes brasileiros foram lançados, contra uma média de oitenta lançados por ano durante a década de 80.

O encerramento do ciclo da Embrafilme fez com que o campo do cinema brasileiro se mobilizasse e procurasse novas formas de relacionamento com o Estado, na tentativa de encontrar alternativas de sustentação para o fazer cinematográfico.

Nem o Estado e tampouco as empresas conseguiram dar cabo ao atendimento das demandas do cinema brasileiro, nem naquela época e nem no momento atual. O mercado brasileiro continua ocupado pelo produto estrangeiro e a relevância, positiva e/ou negativa, do ciclo Embrafilme se perpetua nas discussões políticas da corporação cinematográfica e nos estudos acadêmicos a respeito. Longe de minimizar o trauma ou a gravidade da ruptura assinada pelo ex-presidente Fernando Collor, se faz necessário buscar uma nova percepção deste acontecimento. A percepção que tenho, faz com que me pareça parcial a cartografia dos acontecimentos e dos agentes diretamente envolvidos no colapso da empresa de cinema, já que o que se encontra na bibliografia atinente a matéria são depoimentos e comentários esparsos, além das apologias da corporação cinematográfica, seja quanto a presença do Estado na atividade, seja pela intervenção estatal ou através da renúncia fiscal.

Foto de destaque – Protesto contra a extinção da Embrafilme no centro do Rio de Janeiro, retirado de http://memorialdademocracia.com.br/card/governo-comeca-a-reduzir-o-estado

É importante se ter ciência do que foi o embate entre a corporação cinematográfica com o Ministro da Cultura do Governo Sarney, o economista Celso Furtado. Destaco aqui a sua resposta ao jornalista Marcos Augusto Gonçalves, no programa Roda Viva:

Marcos Augusto Gonçalves: Eu vou sair talvez um pouco do assunto. [Em] uma série de mecanismos da história da formação do Brasil, há uma presença muito forte do Estado em diversas áreas, e também na cultura. Com a criação do ministério – e mesmo antes, isso é uma coisa que existe, a presença do Estado – ele gera uma relação com os produtores culturais, que é uma relação que existe no Brasil de uma grande expectativa, por parte de quem produz cultura, em relação ao que o Estado vai lhe possibilitar. (…) O caso recente da Embrafilme, que fez um relatório de prestação de contas para acionistas, e a Folha publicou uma reportagem mostrando que as contas estavam totalmente erradas – isso foi há coisa de dez dias. Até agora a Embrafilme ainda não conseguiu apresentar contas certas, [e] está ligada ao ministério com um economista no cargo [de ministro]. O senhor acha que isso é uma incompetência que faz parte da administração pública do Brasil de maneira geral, ou na cultura a questão da administração é mais precária de que em outras áreas? Ou seja, na hora de lidar com o dinheiro, enfim, na hora de ser eficiente empresarialmente o setor cultural está aquém de outros?

Celso Furtado: Não, primeiramente eu diria que a cultura é questão do Estado. Estamos hoje vivendo um esforço enorme para sair dessa mentalidade paternalista. Essa é que é a verdade, nós estamos hoje em dia com uma lei que transfere a iniciativa para a sociedade, que estimula a organização de grupos culturais e, portanto, dá as costas a essa coisa do passado, que o Estado faça tudo. É um pouco da tradição brasileira, não só no campo da cultura, mas em todos os outros campos. Agora, com respeito à questão da ineficiência, eu não creio que o problema gerencial em cultura seja exatamente o mesmo [problema] gerencial em outras atividades – porque quando nós dizemos gerência, nós queremos dizer racionalidade formal, cálculo econômico, etc e isso nós temos, está ligado ao que é quantitativo. Quando eu vou para um campo – como é a ópera -, imaginar que eu vou aumentar a produtividade de uma ópera, essas coisas são uma ilusão completa. Portanto, os critérios gerenciais podem até ser prejudiciais se forem levados muito longe, o que não impede que se possa ter uma boa gerência. Com respeito à Embrafilme eu diria o seguinte: no Ministério nós encontramos uma Embrafilme que vem de uma história passada de complicações de toda ordem, que já é sabida, não é? E que vinha se realizando um esforço. O Carlinhos estava realizando um esforço para pôr ordem em tudo aquilo. [Carlos Augusto Calil, diretor geral da Embrafilme, interinamente entre o final de 1984 e início de 1986, e em definitivo no ano de 1986. Deixou a direção no final de 1986 alegando descontentamento com a política de esvaziamento da Embrafilme promovida pelo entrevistado] Finalmente ele nos deixou, e foi preciso fazer uma substituição de direção. Essa substituição se fez exatamente no sentido de dar operacionalidade. Eu pus gente competente em gerência lá na Embrafilme. Essa conta errada que surgiu foi um resultado de que a administração que saía da Embrafilme – muito na carreira, no apagar de luzes, enquanto terminava, “fechava as gavetas” -, resolveu fazer um relatório para mostrar que tinha feito tudo direitinho, etc, etc. Na verdade pecaram, porque um relatório complexo, como o da Embrafilme, com tantas complicações num passado de dez anos de vida evidentemente poderia levar a esse tipo de equívoco. A nova direção, com muita razão, com a prudência de quem entende de gerência disse: “Nós estamos estudando tudo isso e oportunamente apresentaremos os dados corretos.” E eu não tenho nenhuma dúvida de que esses dados absolutamente corretos serão apresentados dentro de pouco tempo à opinião pública brasileira. [Fernando Ghignone assume a direção geral da Embrafilme ao final de 1986. Demite-se ao final de 1987]

Cumpre notar que, segundo o Ministro, o problema não se encerra apenas na gestão, mas na própria atividade fim da empresa e na sua missão institucional. No que tange a legitimação política da empresa, a declaração do estimado economista – um intelectual renomado justamente por defender a intervenção do Estado nas atividades econômicas – acaba por detonar uma bomba de considerável destruição na própria legitimação da Embrafilme dentro do governo, que além de sofrer com as intempéries econômicas e políticas, passa a ser contestada pelo seu mantenedor.

O “trauma Embrafilme” surge em momentos de inflexão econômica, como o que se faz presente, e em dissensos corporativos, como os que ocorreram no Festival do Rio, no ano passado. As lembranças deste trauma surgem para maquiar interesses corporativos e justificar desmandos das tais autoridades cinematográficas, seja as de âmbito federal, como estadual e municipal. Se surgiu ano passado em um episódio isolado de dissenso na localidade carioca, vai surgir como potência nacional no próximo ajuste fiscal do Governo Dilma. Se antes como tragédia, no pós 2013, será como uma boa e “austera” farsa política e cultural. E a essa farsa nem o Fundo Setorial do Audiovisual estará imune.


Referência:

  1. SOUZA, J.I. de M. A morte do cinema brasileiro e outras mortes. Revista da USP, nº 9, 1993.
  2. MARSON, M. I. Cinema e políticas de Estado da Embrafilme à Ancine. São Paulo: Escrituras, Vol. I, 2009.