Estranhamente, cartelas inicias que contam do processo temporal de realização desse curta doc (sei que há o longa, a ser comentado em seu devido tempo), contam também do processo de tensão que se instalou entre os componentes da banda e os técnicos nos momentos de gravação, e da tensão voltada à equipe de gravação do filme, que estaria causando incômodo. Logo no início de um trabalho, ler tal informação acendeu um alerta de que talvez estivesse naquilo algo como uma “desculpa” antecipada do resultado que nos seria oferecido; ou, um truque para acentuar possíveis investidas do trabalho na direção de ser aceitado como algo extrapolaria para além do documentário (o que seria investida bacana), diante de algum resultado que não teria agradado aos diretores. E surgem as primeiras imagens e sons na tela…

Bem, MMXII (ou, 2012, o ano) trata de uma volta da bela banda carioca de rock (trash, progressivo, ambos? Não me meto nessa briga) “Dorsal Atlântica”, com sua formação original, para gravar um disco custeado pelos fãs por uma ação de arrecadação coletiva. O fato em si, fãs arrecadando grana para ouvir sua banda novamente, só por si, renderia um belo mote a ser tratado. Mas Frederico Neto e Alexander Aguiar pensaram na oportunidade (ao menos no “segmento curta-metragem) como uma ótima chance para fazerem desse instante, cinema… Assim, simples e lindamente, cinema.

E surgem as primeiras imagens e sons, quando logo nos primeiros takes dá para notar que há ali forte compreensão de quadro, com composições tremendamente justas para destrinchar o ambiente do estúdio que seria o abrigo do curta (e, então, se nota que a ação do público fã, nesse instante, não seria o mote tocado): posições de lente que entregam (por um PB, aqui inquestionável) quadros bastante instigantes, completos e precisos. Mas há mais: uma segunda câmera passará a ser notada, rodando concomitantemente. E o doc ganha mais peso ainda, pois nuances arrancadas dos quadros mais amplos são embutidas na montagem, para notarmos instantes de tensão e determinação entre Carlos ‘Vândalo’ Lopes (o gênio genial, o que determina tudo de mais importante no prosseguimento do doc), Cláudio ‘Cro-Magnum’ Lopes e o baterista Toninho ‘Hardcore’. Indo além, a grande chance de ouvir e ver os sons arranjados e ostentados “ao vivo”, os das gravações no estúdio, com a grande qualidade que nos chega aos ouvidos, entrega o capricho empreendido na confecção.

Há uma completude rara nesse modelo de filme, quando por muitas vezes se abdica das questões técnicas, pois o que estaria em “jogo” seria trazer a “oportunidade”. Porém, fica evidente que a equipe de filmagem realmente se intrometeu na coisa a fundo (e com muita certeza do que queria) porque sabia que ali arranjariam material bom. Filme de primeira, de quem pensou no que faria, e que ainda mais se permitiu uma pequena galhofa, ao som (e imagens anteriores) de “Dorsal, Dorsal, Dorsal…” sendo entoado e posteriormente aproveitado, com um leve sotaque paranaense contrastando à pauleira de um som carioca. Aliás: que a chance de ver/ouvir Carlos dedilhando genialmente a guitarra…

 

MMXII

Direção: Frederico Neto, Alexander Aguiar
Duração: 18min.
Ano: 2015

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