Djon África – Dir. Filipa Reis e João Miller Guerra | ficção | 96’ | Brasil, Portugal, Cabo Verde

por Vinícius “VINO” Carvalho

Quem é esse que muda o visual diante do espelho, diante da câmera, diante de nós, numa constante reinvenção? Que muda igualmente de nome, conforme a situação. Poderia ser uma busca, no sentido clássico da narrativa, mas esse não é um herói. É de longe que nos relacionamos com ele, e é de longe que ele se relaciona com a cidade, com o espaço ao redor. Paisagens a distância, planos em teleobjetiva, carros passando por entre personagem e câmera, entre personagem e público. O filme passeia pela questão das pautas identitárias, e assim dá o que a meu ver foi a tônica de toda a sétima edição do festival Olhar de Cinema.

O furto na loja de departamentos, falsas pistas na narrativa e nosso pré-conceito, diante do que vai acontecer, se projeta também na tela grande. Num momento em que lugar de fala está tão presente, nos perguntamos quem é que faz o filme, qual é o ponto de vista? E a coprodução entre países, cheia de pessoas brasileiras na equipe, encaixa tanto numa história intercontinental. Do extra filme, há contradições contemporâneas do longa Djon África; dentro do filme, há contradições contemporâneas do personagem Djon África.

Há digressões poéticas na narrativa meio grogue, o que importa menos do que a experiência, o que é comum também neste cinema de hoje. Cenas documentais de imersão, esse hibridismo que foge das etiquetas, e essa atuação de não-atores e artistas do teatro. Tudo fluindo para um personagem que não sabe bem quem é, numa narrativa que não se sabe se é de busca – é com certo acaso que ele busca o pai, é com certo acaso que viaja. Uma identidade incerta, duvidosa, borrada, o mais contemporâneo dos sentimentos, esse não pertencimento, esse não-lugar. Que se mostra na forma com que Djon se apresenta, na forma com que Djon é visto. Africano, pela cor da pele é marginal em Portugal, estrangeiro e turista na África. Pai de si mesmo, como afirma. “Somos todos fugitivos”, nos revela a senhorinha. Em meio às aventuras ou dissabores, cenas e paisagens que nos roubam, Djon está sempre “meio-que-à-deriva”. Aliás, o único momento de ímpeto, em que ele finalmente corre, é justamente quando descobre que será pai, e quem sabe para voltar a Portugal. Ironias.

Ao sair da sessão, sou surpreendido por um colega de trabalho (que sempre vi atrás de um computador executando tarefas burocráticas) empunhando duas doses de ‘grogue’, vindas diretamente de Cabo Verde, com os dizeres DJON ÁFRICA na embalagem de plástico: “…e aí, Vino, prova isso!”. Eis o que é uma ação de marketing.

Fotos cedidas pela produção do filme e por Leticiah Futata. Revisão por João “TIR” Horst.