Dir. Ewerton Belico e Samuel Marotta | ficção | 80’ | Brasil

Um atabaque estranhamente anuncia algo por acontecer. E nos avisa que o que vemos e ouvimos fora do pequeno enquadramento também é importante. A noite que nunca acaba. Alguém cruza um cemitério em meio a essa cidade noturna. “Bairros, cidades, estrelas, constelações”, me pego cantando. Baixo Centro é um mar de luzes. “Homens, mulheres, segredos, imperfeições”. É como se o mundo do ritmo diurno, cheio de pressa e movimentação, precisasse desse submundo sombrio para existir. Sabemos desse intercâmbio. Apesar da promessa de ter tudo ao alcance, do mercado ou da conveniência 24h, desse mundo de informações ao nosso alcance. Apesar de nossas tentativas individuais ou plurais de engajamento, de ocupar e transformar o espaço público e nossos relacionamentos de melhor forma, sabemos da  desmobilização, da especulação, da violência, da matança, do apagamento… Disparado o filme que mais mexeu comigo nos últimos tempos – talvez porque encontramos na grande tela o que temos visto demais nas noites e ruas escuras e frias.

Em pequenos momentos de encontros fortuitos, de uma pretensa vida cultural urbana, a esperança se desfaz em karma coletivo. Não há vitória, não há sucesso, não há solução. A cidade nunca pareceu tão grande diante do corpo e da razão, enquanto perambulamos nesse limite, de lá pra cá, num labirinto de planos e contraplanos. Volta e meia nos deparamos com presenças e ausências do além, além do campo, da quarta parede.

O que está à margem aqui é central. O periférico, a exclusão, se mostra numa atmosfera de estranhamento, afinal não acessamos esse submundo em nosso cotidiano, apesar da consciência de que ele existe. Esse estranhamento aumenta a cada longa cena, longas falas sem diálogo, sem olho no olho. Novamente o atabaque, que de alguma forma ecoa na trilha, do rap ao funk, finalmente no ponto de terreiro. Onde foi parar aquela galera que ocupava a rua com cultura? Lá em Belo Horizonte, ou em Curitiba? Tudo desmorona nessa arquitetura do concreto, há sempre um desnível, uma hierarquia entre o que está no alto e o que está no baixo. A cidade de outrora morreu, morreram junto dela, e os eguns estão à solta, nos lembrando disso.

E, assim como o fotógrafo do filme, nos resta registrar tudo isso, quem sabe para um outro momento, em que olharemos para o absurdo dessa situação toda. Então teremos a certeza de que alguém falou a respeito, alguém trouxe isso à tona, teremos memória, teremos Baixo Centro.