Maíra Kaline é estudante no curso de Comunicação Organizacional na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Durante as ocupações estudantis de 2016, realizou o documentário Primavera Secundarista. O filme foi exibido no festival Olhar de Cinema, quando entrevistamos a diretora:

Cinestésico: Foi a primeira experiência sua e do filme em um festival? Como foi essa experiência?

Maíra: É o primeiro festival internacional que o Primavera está passando, e meu também. Eu já trabalhei em festivais, mas sempre “por trás”, numa Secretaria do estado do Amazonas, em que eu fui técnica de lá. Organizando grandes festivais, participei de curadorias. É gratificante ver um trabalho ser reconhecido, um trabalho tão simples, a captação com câmera na mão, áudio que captamos com um celular.

A gente fica muito feliz de poder levar para as pessoas um outro lado do movimento, um lado que não foi mostrado pela mídia, um lado que o poder político e os poderosos excluíram, fizeram um apagamento. A gente propõe uma resistência ali no documentário para que não haja um apagamento do que houve em 2016. Levar essa possibilidade de luta coletiva, de participação política. É bem gratificante, fico bem feliz.

Cinestésico: Vemos que há, para além dessas questões técnicas, um filme de imersão, feito no calor do momento. Como foi esse processo de estar ali filmando?

Maíra: Morri de medo de apanhar! Para mim, filmar e fotografar requer sempre um preparo, eu sinto que requer muita energia pra preparar. Tanto pra que não haja nenhum impasse, quanto quando estou captando, eu me sinto muito exausta, eu me entrego demais. Estar lá fazendo isso, e participando do movimento estudantil, foi tudo muito cansativo. O pós disso foi bem cansativo, eu tive um tempo em que precisei de ajuda psicológica, eu chorava muito depois de ver esse material. Eu não conseguia pegar nesse material, era um material que doía muito. Quem editou ele, pegou com muito carinho, foi o Renato Próspero, porque eu não tinha condição alguma.

No dia, eu fazia a captação, ia pra lá durante o dia. No primeiro dia de ocupação eu fiz os registros, e foi o dia de mais “muvuca”. Eu pensei “eu preciso registrar, porque se eles entrarem aqui, e a gente sofrer uma agressão, eu tenho o registro de tudo aqui, se quebrarem alguma coisa, eu tenho que registrar!”. Tanto que no ato da ocupação da UTFPR, que a gente planejou fora de lá, o nosso combinado era: cada um vai para um portão, fica com a câmera e dois acompanham o segurança, enquanto você fala o que está acontecendo e qual a proposta. Era mais um registro por precaução.

Cinestésico: Mas tinha-se pensado num filme já no início?

Maíra: Eu tinha pensado num filme, porque quando eu fui visitar a ocupação do CEP [Colégio Estadual do Paraná], a gente não tinha efetivado a ocupação da UTFPR [Universidade Tecnológica Federal do Paraná], e eu cobrava a direção do DCE [Diretório Central dos Estudantes], “e aí, vamos fazer alguma coisa, vai acontecer algo aqui ou não vai?”, e foi um movimento independente, aconteceu por fora do DCE.

Cinestésico: O filme retrata bem essa reação ao movimento, e lá na UTFPR ainda mais. Você acha que há essa tendência ao fascismo, como foi filmar isso?

Maíra: Para dialogar, não teve diálogo na verdade, a gente andava o tempo todo com balaclava. Eu estava lá durante o dia, às vezes a gente tinha ameaças, de que iriam tirar a gente na porrada. Eu saía com meus equipamentos correndo!

Mas eu acho que é bem comum, a gente sente que é algo bastante enraizado na própria UTFPR, o autoritarismo, aquela coisa do formato da escola, de seguir muito os horários e regras, a UTFPR tem muito isso até hoje. Então foi só uma oportunidade de quem se identifica com esse posicionamento político, de mostrar as caras. É com isso que a gente identifica quem é quem ali dentro. E eu percebo que além disso, todas as pessoas que se reuniram pra efetivar a ocupação, cada uma delas carregava algum sofrimento, alguma perseguição, ou machismo, dentro da UTFPR mesmo, e foi o “boom” com a ocupação. As pessoas se uniram.

Cinestésico: E pensando mais no filme. Você tem esse posicionamento a respeito das narrativas, disputa, por estudar isso também. Como vê isso para adiante, agora?

Maíra: Eu vejo que é importante ter esse contraponto à grande mídia. Mas também é importante não enaltecer, agora eu fico me perguntando se é importante dar nomes, o movimento de “anti-ocupação”. Porque eu não queria dar nome e espaço a esses movimentos reacionários. Eu queria mostrar apenas que era um movimento agressivo e fascista? Porque já tem muita gente dando ibope.

Então a gente tem que ter esse cuidado, para se fortalecer cada vez mais. Depois dessa ocupação a gente conseguiu se reunir, fazer uma chapa e ganhar o DCE. É um movimento que vai continuar, que deve estar ligado ao movimento estudantil e que pretende levar adiante essa luta política que surgiu na ocupação.

Cinestésico: E seu filme faz parte de um cinema emergente, como você localiza ele no cinema brasileiro?

Maíra: Atitude de pegar a câmera e fazer, essa foi a maior ideia. E isso me guia agora até mesmo como estudante, pra entender como funcionam os projetos de governo, como se aplicam no ensino. Para além de ensinar a técnica, é necessário ter um pensamento político, o que estamos fazendo com o nosso trabalho?

Esta entrevista foi realizada por Vinicius “vino” Carvalho. Imagens still de divulgação do filme Primavera Secundarista.