FOLHA: Brasil não leva Oscar se “Lixo Extraordinário” ganhar

FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES

Metade do filme foi feito com dinheiro público brasileiro, rodado em solo brasileiro, com equipe brasileira e sobre um artista brasileiro. Ainda assim, se “Lixo Extraordinário” ganhar o Oscar de melhor documentário no próximo dia 27, a estatueta deve ir para longe do Brasil.

Na sexta, a Academia de Cinema dos EUA incluiu o nome da empresa de Fernando Meirelles, a O2 Filmes, nos créditos do longa no site do Oscar, ao lado da produtora britânica Almega Projects.

Porém os nomes dos indicados continuam iguais: dois britânicos, a diretora Lucy Walker e o produtor Angus Aynsley, idealizador do projeto e colecionador de arte.

“Lixo Extraordinário” segue o trabalho de Vik Muniz no maior aterro sanitário da América Latina, no Rio.

Meirelles e Andrea Barata Ribeiro, da O2, ficaram “surpresos” pela ausência da produtora nos créditos, mas não ficou claro se eles se manifestavam também por um lugar nas indicações.

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Cena do documentário "Lixo Extraordinário", de Lucy  Walker, que concorre ao Oscar
Cena do documentário “Lixo Extraordinário”, de Lucy Walker, que concorre ao Oscar

“Conversei com Angus Aynsley nesta manhã [quinta], ele confirmou a O2 como coprodutora. Faremos as mudanças em nossos arquivos”, disse a coordenadora de prêmios da Academia, Torene Svitil, explicando que só duas pessoas, produtor e/ou diretor, podem ser indicadas. “Os únicos indicados são os dois listados no site.”

Aynsley e Ribeiro afirmam que o erro foi da distribuidora americana, Arthouse Films, que, por sua vez, apenas comentou: “Todo mundo assinou os formulários”, disse uma assessora.

O próprio Aynsley afirma que o filme é “brasileiríssimo”. “Muito engraçado acharem que é britânico. Os britânicos acham que o filme é brasileiro”, diz, por e-mail. “Somos todos refugiados do mundo maravilhoso do cinema internacional.”

A direção também foi bem dividida. De acordo com os produtores locais, Walker filmou apenas uma pequena parte em Nova York e a primeira ida de Muniz ao aterro.

Ela abandonou o projeto para se dedicar ao documentário “Countdown to Zero”, sobre armas nucleares, e voltou ao final para montar.

O diretor brasileiro João Jardim fez seis meses de filmagens, achou personagens e gravou em Londres. Há também uma terceira diretora, Karen Harley. Os dois são codiretores do filme.
“Apesar de termos produzido o filme, nunca a encontrei [Walker] nem falei com ela”, disse Meirelles.

“A codireção foi contratual e estava já prevista. Não houve má fé de nenhum dos lados”, explicou Ribeiro.

A reportagem trocou mais de dez e-mails com o assessor de Walker, mas a diretora se recusou a dar entrevista.

Aynsley conheceu Muniz em 2003, quando o artista fez retratos de chocolate de seus filhos. O britânico fez um curta sobre o artista em 2006. Depois, chamou Walker para filmar um longa, em 2007.

A parceria com a O2 veio no mesmo ano, em maio, quando Aynsley conheceu Ribeiro em Cannes.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/868245-brasil-nao-leva-oscar-se-lixo-extraordinario-ganhar.shtml