O cinema: profissional X amador – digressão 1

Durante o debate ao vivo e online entre os críticos Mau Saldanha (Cabine Celular) e Pablo Villaca (Cinema em Cena) veio a tona o embate entre o profissional x amador. O stream pode ser acessado aqui.

Enquanto Mau Saldanha se apresentava como um cinéfilo que comentava na hora e no calor as suas impressões sobre os filmes, que recém tinha assistido; Pablo Villaça cobrava dele responsabilidade por não ter embasamento adequado em seus argumentos, apenas emitindo opiniões para um público que credita a ele uma visão de crítico profissional.

Dessa polêmica ficam duas questões para uma análise:

1) a dicotomia – comportamento x linguagem;

2) a arte tem que ser profissional?

Com a emergência do digital (que propiciou o barateamento da produção artística em todas as suas vertentes) e da internet (que permitiu e permite um acesso e difusão aos bens simbólicos nunca antes vista na história) o fazer artístico como conhecemos (produzir um produto cultural) se torna mais comportamento humano, vira cotidiano. Contexta-se o paradigma do artística como um ser dotado de capacidade única para se expressar, por consequência se refuta a já refutada mentalidade em separar uma alta cultura de uma baixa cultura. Elimina-se a oposição, se é que ela uma vez existiu, entre público e artista. O público agora é fazedor de arte também.

Do regulamento do Festival Cine-Esquema-Novo, de Porto Alegre:

“No momento em que cada vez mais “tudo é cinema” e todos, com suas câmeras de foto e celulares, são potenciais cineastas, acreditamos que o cinema sobreviverá justamente pela existência do autor e da idéia. Ou seja, da sensibilidade em ir além do mero registro da imagem.”

O Cine-Esquema-Novo sempre foi um espaço aberto aos mais variados suportes. No cinema – devido sua forte mediação técnica, tecnológica e econômica – o suporte sempre foi determinante para um filme ter seu status de arte. O fascínio pela película ainda desperta na velha guarda de realizadores um desprezo pelo suporte digital, encarado como menos artístico e amador.

No mercado artístico, a divisão entre artista amador e profissional ainda se estabelece pela outorga de permissões institucionais, permitindo, assim, o artista sobreviver de sua arte. Se não é a carteirinha da OMB para os músicos, é o diploma ou a DRT para os profissionais de cinema, teatro e espetáculos. Outro critério não tão burocrático, mas tão torpe quando o anterior, é a atribuição de profissionalismo do artista devido a renda de seu trabalho.

Se o critério anterior era mais uma reserva de mercado para os artistas já estabelecidos com a sua permissão para trabalhar, a atribuição de profissionalismo pela sua rentabilidade ou exploração comercial torna-se uma premiação ao artista e ao segmento artístico mais explorável comercialmente, que após a sua consagração profissional tem sua vaga garantida no profissionalismo, tendo a sua reserva de mercado garantida.

Voltando a questão posta pelo crítico Pablo Villaça, a qual é muito pertinente, ele não se referia a nenhuma reserva de mercado, mas a necessidade/responsabilidade do crítico, que também é um artista, em ter uma noção do que está falando. Em não se restringir apenas a sua cinefília, mas em expressar conceitos contidos na obra, compreendendo rupturas estéticas e contextos históricos de produção e recepção de um filme. Saber que em um filme as coisas não são gratuitas, mas construções e escolhas. Nesse aspecto é salutar destacar, novamente, o regulamento do Cine-Esquema-Novo, o qual reproduzo grifado: “a sensibilidade em ir além do mero registro da imagem”.