TAKE 5: eleições e novos rumos na política cultural de Curitiba – Dennison de Oliveira

O surpreendente resultado do primeiro turno da eleição de Curitiba para prefeito encerra uma hegemonia política de 24 anos no executivo municipal. Aproveitando o momento político, o blog faz 5 perguntas para pesquisadores e ativistas culturais que atuam na cidade. O primeiro entrevistado é o Professor Dennison de Oliveira, do Departamento de História da UFPR, autor do livro “Curitiba – o mito da cidade modelo”, além de ter orientado e publicado vários trabalhos acadêmicos na área.

Antes de responder as perguntas, o Professor Dennison afirmou ter votado, no primeiro turno, no candidato Avanilson Araújo do PSTU e que, nesse segundo turno, vai votar no candidato Ratinho Jr por considera-lo um mal menor frente ao que chamou de “desgraças e prejuízos que o lernismo-demo-tucanato-vigente vêm infligindo à Curitiba e ao Paraná”.

1. O que representa a ida dos candidatos Ratinho Jr (PSC) e Gustavo Fruet (PDT) para o segundo turno, bem como o terceiro lugar amargado pelo atual prefeito Luciano Ducci (PSB)? 

O fracasso da família Richa em atender aos interesses da coalizão que preside, que paga suas campanhas eleitorais, e ao mesmo tempo garantir um mínimo de retribuição material e simbólica aos dominados, os que votam. Seu governo é um fracasso econômico e produtivo e sua total falta de ética no trato da coisa pública os antagonizaram com o povo. O racha com Lerner que preferiu lançar Fruet também não ajudou. Enfim, é grande a crise no lernismo.

2. No presente ano tivemos duas grandes polêmicas no âmbito cultural: (i) uma possível ausência de verba no Mecenato de Curitiba; (ii) a privatização da Pedreira Paulo Leminski, Teatro Opera de Arame e Clube Náutico. Em relação a esses dois eventos, podemos esperar alguma mudança ou resgate por parte dos candidatos que estão no 2º turno?

Duvido. Sou cético. A reversão de qualquer um desses fatos geraria ônus não compensado por outras vantagens. Deve ficar assim, ruim como está.

3. Que mudanças podem ser esperadas da próxima gestão no que se refere ao trato das políticas culturais caso o candidato Ratinho Jr for eleito?

Isso quem pode responder é o futuro presidente da FCC do Ratinho Jr, Claudio Ribeiro.

4. Que mudanças podem ser esperadas da próxima gestão no que se refere ao trato das políticas culturais caso o candidato Gustavo Fruet for eleito?

Não faço idéia. Pode haver alguma mudança sim, mas dificilmente será de sentido positivo e republicano. Uma possibilidade são os cineastas locais como Beto C., Pedro M. e a turminha da Monica R. ganharem cargos.

5. O resultado do primeiro turno (07/10/2012) nessa eleição para prefeito em Curitiba pode ser tido como uma mudança significativa para a cidade, ou entendida como o fim do lernismo e do “mito da cidade modelo” ou mesmo, o fim da política de artistas oficiais afeitos a representação institucional da cidade – cultura de evento e de cartão postal?

Volto a insistir. Não ocorreu nenhuma mudança significativa. O lernismo atravessa sua pior crise e talvez a definitiva, mas se rearticulou em torno de Fruet. O mito também está em crise, pior ainda, o pacto político que torna possível a imposição do projeto lernista de cidade também está em crise. O padrão oficialesco da política cultural jamais será rompido enquanto houver financiamento ao artista ou seu produto. Essa política – que na verdade emula a política oficial nacional – nada mais pode acrescentar além do pouco que já fez. Tá na hora de romper o paradigma de financiamento à cultura vigente e se partir para o subsídio à indústria, aos meios de produção cultural mesmo, privilegiando sempre o pequeno empreendedor, principalmente aquele que exerce atividades de apoio ao trabalho artístico. Hoje em dia o sujeito ganha dinheiro pra fazer um filme, show ou peça, por exemplo, mas os prestadores de serviço que tornarão o produto possível são caros, monopolistas e de difícil acesso, quando deveriam ser baratos, abundantes e acessíveis. E isso deve permear toda política pública e não ficar apenas na política explicitamente cultural. Por exemplo: por quê isentar de IPTU e ITBI os donos da BR-116 (“linha verde”) e não as produtoras de audiovisual, os promotores musicais e os teatros? Por quê inexiste no plano diretor a política cultural numa base geo-referenciada? Quando haverá política de transporte público que viabilize as atividades culturais? E assim infinitamente…

Info: PropostaAndre Wlodarczyk